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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O Pássaro de Fogo - Capítulo 3

Já sabemos que, na casa do pai, Gabriella está passando por períodos difíceis... No entanto, as coisas também não estão indo muito bem na vida de outra pessoa. Anubis, um rapaz egípcio da mesma idade de Gabriella, também precisa enfrentar os dilemas em sua casa - conviver com um pai severo, intolerante e exigente, uma mãe submissa e aceitar o fato de que jamais será, aos olhos de seu pai, tão bom quanto seu irmão mais velho. Estaria ele condenado a ser, para sempre, apenas a sombra de seu irmão?
Além disso, a família dele não é como qualquer outra. Anubis faz parte de um clã de caçadores... Também conhecidos como os "Caras de Preto". Quem serão eles, e o que fazem?

Capítulo 3 - A Verdadeira Face dos Pensamentos.
"9 anos depois...
Areia.
Muita areia, e um sol tão escaldante quanto o calor de Vênus, o planeta mais brilhante do sistema solar. Os corpos dos viajantes perdiam água aos poucos. Os camelos andavam lentamente, sem nunca parar. As roupas largas protegiam a pele das pessoas dos raios impiedosos do sol, mas a areia nunca parava de vir. Cada vez mais areia, e o vento fazia questão de chicoteá-la nos olhos de todos os seres que habitavam aquele inferno, o que devia arder muito.
Isso, infelizmente, era apenas um sonho.
Apenas um sonho após horas assistindo documentários que falavam sobre a vida no Saara, aquele deserto enorme e cheio de areia. Pois, se não fosse sonho, o que significaria a voz estridente que berrava o nome de Anubis lá do andar de baixo? Ele rolou na cama, imerso em preguiça. Era até difícil reconhecer a voz que gritava por ele, pois o rapaz havia enrolado o lençol em torno da cabeça, como um casulo de lagarta.
De repente, passos ecoaram nas escadas. Os gritos haviam cessado.
Ele sentiu uma pontada de desespero. Se seu pai estivesse em um dia ruim, poderia muito bem subir apenas para lhe dar uma surra de bom-dia. Ele, porém, logo se acalmou. Os passos eram suaves. Pouco a pouco, alguém entrou no quarto e colocou as mãos macias com dedos longos sobre a cabeça dele.
 - Anubis - chamou uma voz, suave e aveludada, que mais parecia uma harpa sendo tocada pelo vento - Acorde, filho.
Ele se mexeu, contrariado. Atirou o lençol no chão sem a menor cerimônia e se levantou de uma só vez. Encarou a mulher diante de si. Ela estava usando um vestido longo que cobria suas pernas, usava sapatilhas fechadas que cobriam os pés e estava com um lenço cor de terra na cabeça, cobrindo-lhe os cabelos.
 - Bom dia, pequeno chacal - disse ela, sorrindo.
 - Bom dia - disse ele, com um bocejo.
 - Seu pai o está chamando - ela o alertou em um tom mais urgente - Não o faça esperar.
Ele assentiu, engolindo em seco. Pelo menos, seu irmão mais velho já havia descido, o que representava uma chance de o pai ser um pouco mais brando. Esperou que sua mãe descesse, vestiu uma calça de malha fina e uma camiseta branca, passou a mão pelos cabelos bagunçados e desceu.
Ao entrar na cozinha, seu pai o fitou. Hamadi, o ditador. Estava um tanto carrancudo, mas o fato de Kassid estar ali já o ajudava a conter suas crises explosivas.
 - Não me ouviu chamar, menino? - ele questionou.
 - Desculpe, pai - disse, baixando o olhar - É que eu não consegui dormir direito na noite passada.
 Hamadi bufou, impaciente.
 - Precisa afiar sua atenção - disse - Kassid atendeu nos primeiros chamados. Durante uma caçada, a sua vida pode depender disso.
Ah, claro, como se eu fosse seu cachorrinho de estimação, pensou o rapaz. Ele sempre se utilizava de Kassid como referência, como se ele fosse a própria perfeição. O mais velho sorriu, mas Anubis fechou a cara.
Amira deu sinais de que iria se aproximar dele, mas por alguma razão acabou desistindo. Em vez disso, voltou a adotar uma postura submissa e se dirigiu ao marido.
 - Hamadi - disse ela, e ele a encarou. Ela respirou fundo antes de continuar - A vizinha da casa amarela, no fim da rua, convidou a mim e às meninas para tomar uma xícara de chai, e para que elas brinquem com a filha dela. Pensei...
 - Da casa amarela - disse, interrompendo-a - A casa de Zaid, o professor?
 - Sim - ela confirmou - Sua esposa é Naila. A filha se chama Alita.
 - Mas eles... - ponderou Hamadi - Acha mesmo que é uma boa ideia?
Anubis soltou um suspiro. Ele sabia mais do que qualquer um que aquele seria mais um dos milhares de debates que seus pais tinham todos os dias. Ele já sabia que seu pai tinha certo receio dos vizinhos. Alguns conflitos civis haviam ocorrido há algumas semanas no bairro, por conta de algumas diferenças entre sunitas e xiitas, e as ruas não estavam muito seguras desde então, muito menos a casa dos vizinhos. Além disso, apesar do cuidado para não chamar atenção, eles sabiam que algumas famílias das redondezas falavam deles pelas costas. Afinal, eles não seguiam a mesma doutrina religiosa.
 - Tomaremos cuidado - Amira prometeu - Sabemos o quanto seria ruim para todos se houvesse algum deslize.
 - Meninas! - ele gritou, passando a mão pelos cabelos ralos.
As gêmeas apareceram, como sempre, juntas. Vinham correndo do quintal de trás da casa, mas hesitaram ao perceberem a severidade na expressão do pai.
 - Sim, papai? - disseram Farah e Naja ao mesmo tempo.
 - Vocês querem ir à casa de sua amiga? - ele perguntou.
Elas balançaram a cabeça, confirmando.
 - Os hábitos da família dela são diferentes dos nossos - disse ele, naquele tom que sugeria que não iria tolerar contestações - Acham que são inteligentes o bastante para brincar e manter um segredo ao mesmo tempo?
Aquilo soou mais acusador do que ele pretendia, o que as fez abaixar a cabeça. Amira lançou-lhe um olhar penetrante e ele tentou corrigir.
 - O que quero dizer - ele se aproximou delas - É que podemos ter problemas se algo der errado. Será que eu posso confiar em vocês?
Bem lá no fundo, Anubis sabia que a questão era simples. Com seu pai, as coisas eram sucintas e diretas. Ele só estava procurando algo que pudesse servir de justificativa para uma resposta negativa ao pedido delas. Elas tinham apenas oito anos, mas não se podia subestimá-las.
 - Pode sim, papai - disse Farah - Mamãe já nos disse que é muito importante manter segredo.
 - Deixe-nos mostrar que somos dignas da sua confiança - arrematou Naja, o que fez Anubis abrir um sorriso malicioso.
Como eram espertas.
- Tudo bem, ok, vocês venceram - disse ele, impaciente - Podem ir.
As duas meninas vibraram e correram em direção à porta. Hamadi tocou o ombro de Amira.
 - Vigie-as - ordenou - E tenham cuidado.
Amira assentiu, foi só o que lhe restou fazer. Ela se manteve quieta, pegou a bolsa e saiu com as meninas, que pulavam. Assim que elas fecharam a porta, Hamadi se virou para os meninos com aquele olhar severo que o caracterizava.
Anubis, com certo rancor, costumava dizer que o pai não tinha preferência pelos meninos assim, no plural, mas no singular. Kassid, o primogênito, era o eterno favorito. Por vezes a fio, Hamadi sequer se dera ao trabalho de disfarçar a distinção que fazia entre eles. Isso despertava uma raiva latente em Anubis.
Mas, apesar disso, ele parecia, por vezes, até mesmo conformado.
Anubis pensava em sua família como um grande bolo de festa - Hamadi seria a vela acesa e brilhante no topo, Kassid seria a cobertura cremosa e as mulheres seriam as figuras coloridas feitas com glacê. Com tudo isso, ninguém se interessaria pelo recheio grudento que estava por dentro, que por acaso era ele.
 - Seu horário delimitado para acordar será estendido aos fins de semana - disse Hamadi, olhando para o filho mais novo - Não posso permitir que outros membros do clã se tornem lapsos como você para coisas tão simples quanto a disciplina ao acordar.
- Pai, eu venho tendo dificuldades para dorm...
- Nem uma palavra - ele o interrompeu - Isto não está aberto para contestações. Kassid, eu li suas novas propostas táticas para emboscadas e elas estão aprovadas. Treine os rapazes e mostre a eles o que é ser capaz.
O mais velho sorriu discretamente e aquiesceu, em silêncio.
- Subam e peguem as roupas - disse ele - Estamos indo para o galpão de treinamento.
Os dois se levantaram e subiram as escadas lado a lado. Eles dividiam um único quarto, pois o andar de cima dispunha de apenas três - uma suíte para Hamadi e Amira, um quarto com um beliche para as gêmeas e o outro, para eles, com duas camas separadas. Anubis pensou em Seth, o menino que morava na casa ao lado e que precisava dividir o quarto com três irmãs mais novas, enquanto as três mais velhas ocupavam o outro quarto. Anubis sempre se sentia aliviado por dividir seu quarto com apenas um irmão.
Mais um ponto de discriminação - a cama de Kassid era novinha, comprada no mês passado, enquanto a de Anubis tinha a idade dele, catorze anos, e corria o risco de despencar ao chão a qualquer instante.
 - Nubi - disse Kassid, chamando-o pelo detestável apelido que as irmãs haviam lhe dado - Onde está a minha camiseta branca?
 - Sei lá, cara - respondeu - Temos um monte de camisetas brancas. Como é que eu vou saber qual é minha e qual é sua?
 - As minhas tem etiqueta verde - ele explicou - As suas tem etiqueta azul. Será que preciso repetir isso toda vez?
Anubis contorceu-se e puxou a etiqueta da camiseta que estava vestindo. Engoliu em seco.
 - Bom, digamos que eu estou devendo uma camiseta para você - disse, com culpa na voz - Aliás, por que é que você usa o mesmo tamanho que eu?
 - Na verdade, é você quem usa o meu tamanho - ele riu - Usarei uma sua hoje para quitar a dívida. Quem mandou crescer tão rápido?
Kassid agarrou Anubis pela cintura e o jogou na própria cama, socando-o de brincadeira na barriga e impedindo-o de se defender.
 - Ladrão de camisetas - disse-lhe, rindo.
 - Queridinho do papai - Anubis devolveu.
Kassid fingiu estar extremamente ofendido e começou a fazer cócegas violentas no irmão. Anubis se dobrou de tanto rir. Deu um soco para se afastar do irmão, e os dois se olharam. Riram mais uma vez, como duas crianças.
O grito de Hamadi cortou a brincadeira e, num salto, eles voltaram a colocar camisetas e vestir calças.
 - Não sei por que ele comprou tantas camisetas brancas - disse Anubis - Tudo bem que aqui em Cairo é bem quente, mas...
 - Rápido - Kassid o interrompeu, com a expressão endurecida - Ele está vindo, eu acho.
Os dois lutaram contra as calças para vesti-las mais depressa. Em seguida, cada um pegou uma muda de roupa preta das gavetas da cômoda. Elas consistiam em uma calça preta justa, uma camiseta preta de mangas compridas, luvas e uma máscara preta que cobria o rosto, deixando apenas os olhos de fora. Podia parecer coisa de ninja, mas essas roupas escondiam uma filosofia de vida que a maioria dos humanos ignorantes desconhecia. Kassid agarrou sua muda e chamou o irmão. Anubis pegou sua muda, bagunçou o cabelo e o seguiu.
Ele tinha plena consciência de que, todas as vezes em que vestia aquelas roupas, ele escondia sua identidade e a verdadeira face de seus pensamentos."
Continua...

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- Laila.


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