Capítulo 4 - A Farsa de Realeza.
"O dia amanheceu.
Não estava tão claro quando ela gostaria que estivesse, mas ela estava decidida a aproveitá-lo ao máximo. A luz invadiu o pequeno quarto. Gabriella se remexeu na cama, inquieta. A preguiça tinha o controle total sobre sua carcaça. Sua cama fez um pequeno rangido. Ela abriu um pouco os olhos, mas o que viu no instante seguinte fez seu sangue gelar nas veias por alguns segundos.
Uma sombra, baixinha, ao lado da porta.
Aquela sombra podia pertencer até mesmo a um alienígena que viera até ali para comer seu cérebro com uma colher, as possibilidades eram infinitas. Só quando essa sombra baixinha falou e o som de sua voz preencheu o quarto é que ela relaxou.
- Gabiiiii - ela ouviu uma voz de garoto. Ele entrou no quarto sem pedir licença e se jogou em cima das pernas dela - Acorde, Gabi!
- Saia daqui, Pedro - ela resmungou - Eu quero dormir.
- Mas já são nove horas da manhã! - ele protestou, como se ela houvesse perdido a hora do almoço ou da própria Independência da República - Levante-se, vaaaaamos!
Ela se rendeu, percebendo que havia perdido o sono que custara tanto para conseguir. Mexeu os braços e Pedro se afastou para que ela se levantasse. Ela deixou que as cobertas caíssem no chão e olhou para seu meio-irmão de dez anos de idade. Ele já estava vestido e estava eufórico, como se ela estivesse perdendo a trajetória de um cometa em formato de unicórnio prestes a abrir uma cratera no centro da cidade.
- Sammy quer falar com você - disse ele.
Gabriella suspirou. Sammy era apelido de Samantha, sua madrasta. Seu pai havia se casado novamente, um ano após ela voltar para casa. Ele e a nova mulher haviam tido um filho, Pedro, o pestinha. Gabriella, porém, nutria um ódio profundo pela nova madrasta. Samantha, é claro, já havia percebido isso e arruinava a vida dela de todas as maneiras possíveis.
A menina sabia que, se pudesse, Fernando se livraria dela na primeira oportunidade. Ele já tinha tudo para começar de novo - uma esposa, um novo filho.
Ela era só mais um peso-morto em sua vida.
Numa coisa, porém, o destino fora bom com ela. Pedro, seu meio-irmão, a adorava. Ela havia ajudado a cuidar dele desde que o menino era bebê, pois ambos os pais trabalhavam fora durante o dia. Ela não lhe pedira nada - ele escolhera amá-la, e esta era a melhor sensação que ela já havia experimentado até então.
Ela percebeu que Pedro ainda estava ali, parado, esperando que ela dissesse algo. Ela voltou à realidade, ao seu pijama cor-de-rosa com bolinhas, ao chinelo azul, ao cabelo desgrenhado. E ainda precisava ir falar com sua majestade, Sammy, numa farsa de realeza que lhe fazia ter vontade de vomitar. Gabriella arrastou os chinelos e o corpo até a cozinha, onde Samantha e Fernando tomavam café. O cheiro de manteiga no pão quente era muito bom e a alcançou em segundos. Samantha lhe lançou um olhar de desprezo que ela já havia se acostumado a interpretar como bom dia.
- Queria falar comigo, milady? - perguntou ela, inclinando-se como se estivesse diante da rainha da Inglaterra, o que fez Pedro dar uma risada.
Samantha dirigiu a ela um olhar tão glacial que Gabriella teve certeza de que não fora a natureza a responsável pelo iceberg que afundou o Titanic - fora o olhar daquela mulher.
- Queria, se você puder parar de agir como uma criança - disse ela - Levante-se e olhe para mim.
- Obrigada, majestade - disse a menina. Gabriella não se importava com olhares glaciais, como a madrasta logo iria descobrir - Eu estava ansiosa para olhar para cima de meu pobre lugarzinho ao sol e glorificar sua magnificência e superioridade.
Pedro desatou a rir sem qualquer compaixão pela situação em que sua mãe se encontrava. O rosto dela ficou vermelho, e então ela olhou para Fernando. Seu olhar dizia que, se ele não interferisse, ela pularia em cima de Gabriella ali mesmo e apertaria seu pescoço.
- Já chega - disse ele, com impaciência - Pare de querer ser sempre a dar a última palavra, Gabriella. Preciso que você acompanhe Sammy e seu irmão até a papelaria. Pedro está precisando de alguns materiais novos para continuar o ano.
Ela foi cuidadosa o suficiente para não demonstrar qualquer emoção. No entanto, virou-se para Pedro e sorriu. Ele começou a pular e bater palmas. Ela não podia, de modo algum, se descuidar dele. Ele era seu único aliado naquela casa sem amor. Não faltava gente querendo levá-lo para o outro lado.
O lado negro da Força, como diria George Lucas.
No fundo, ela sabia que a última coisa que Samantha queria era que ela os acompanhasse. Talvez a madrasta quisesse afogá-la em um lago, vai saber. Havia, porém, um motivo por trás. Apenas Gabriella sabia, de verdade, das coisas que Pedro gostava. Ele costumava rejeitar todos os presentes que seus pais lhe davam, apenas a irmã conseguia agradá-lo. Sendo assim, havia a necessidade de que ela os acompanhasse. Gabriella ficava pensando se o irmão sabia das coisas que Samantha fazia com ela e tentava compensá-la por isso.
Ele compartilhava segredos com ela que Samantha jamais imaginaria.
- Tudo bem - disse ela - Vai ser divertido, não vai, Pepeu?
A raiva distorceu a expressão de Samantha por um instante ao ouvi-la pronunciar o apelido de Pedro. Ela se irritava com o fato de que ele só reagia ao apelido se fosse Gabriella a pronunciá-lo. Além da irmã, ninguém mais podia chamá-lo assim. Ninguém mais, e ele não fazia exceções.
Pedro pulou em cima da irmã e lhe deu um abraço bem apertado na cintura, o que a fez ofegar e rir. Ele ergueu o pulso e olhou as horas em seu relógio.
- Depressa, gente! - ele cobrou, impaciente - Vamos, Gabi! Vamos, mamãe!
Gabriella correu para o quarto com o pretexto de colocar uma roupa mais decente antes que Pedro, o travesso, inventasse de arrastá-la pela rua ainda de pijama. Sim, o pijama dela era lindo, mas ela não queria que o resto do mundo soubesse disso.
Ela escolheu a primeira calça jeans que achou no armário, uma blusa lilás de alças finas e uma meia azul - mas que diabos essa meia estava fazendo em sua gaveta? - quando, de repente, ela decidiu abrir a gaveta de meias. O que ela encontrou ali, no entanto, não foram meias, mas sim uma pilha de tecido desfiado e de renda rasgada. Muitos dos pares estavam manchados, alguns haviam sido rasgados ao meio. Ela olhou, atônita.
- Eu não acredito que ela fez isso - ela murmurou, sentindo o ódio crescer - Eu não acredito que...
- Gabi - ela ouviu a voz de Pedro na entrada do quarto - O que aconteceu?
A menina fechou a gaveta num átimo, fazendo um estrondo.
- Está tudo bem - disse - É só uma gaveta minha que estava emperrada.
Pedro parecia desconfiado, mas aquiesceu e saiu dali. Gabriella desviou os olhos da gaveta e catou um par de sandálias. Ela estava irritada, era óbvio, mas não precisava que Pedro também recebesse aquele aborrecimento. Pegou uma escova na cômoda e penteou rapidamente os cabelos. Ao dar uma última olhada no espelho, ela sentiu um certo incômodo ao reparar em seus olhos. Aos doze anos, ela havia recebido de Fernando um par de lentes coloridas, sem grau, que faziam seus olhos parecerem castanhos, como os de uma pessoa normal. Ela achou melhor assim. Afinal, era cansativo dar a mesma explicação todas as vezes em que perguntavam a ela sobre os olhos.
Enquanto desciam até o térreo, Gabriella cuidou ao máximo para que seu olhar não se cruzasse com o da madrasta. Ela pegou na mão do irmão e a apertou, sabendo que não a soltaria tão cedo.
Ao atravessar a rua, porém, seus olhos encontraram algo e congelaram ali.
Em meio às pessoas que caminhavam pela calçada, havia um grupo de rapazes encostado a um muro, conversando. No entanto, algo neles parecia familiar - algo nos olhos deles parecia familiar. Um deles virou o rosto e seus olhos escuros cruzaram o caminho dos dela por um momento, e então ela perdeu a força que tinha nas pernas.
Naquele instante, Gabriella estava de volta ao beco escuro, naquela noite escura e assustadora, ouvindo os passos de sua mãe se distanciarem dela e vendo o sangue escorrer da faca de um dos caçadores, enquanto um prazer quase sádico cruzava os olhos dele.
- Gabi, cuidado!
Suas lembranças se perderam quando Pedro a puxou pelo braço segundos antes de um carro passar em alta velocidade.
- O quê? - ela se perdeu por um segundo - Ah, Pepeu! Me desculpe! Você está bem?
- Eu? - ele estava assustado - Você parou de andar no meio da rua, Gabi! Aquele carro podia ter... Isso é perigoso, mana!
- Tem razão - disse ela, pegando em sua mão e levando-o para longe dali - Vamos embora.
Ela teve medo de olhar para trás. Teve medo de que o rapaz também reconhecesse seus olhos."
Continua...
Não se esqueça de deixar sua opinião nos comentários para a evolução da história, da autora e desse sonho!!!
- Laila.

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