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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O Pássaro de Fogo - Capítulo 2

Na casa de seu pai, Gabriella ainda não sabe como serão as coisas. Ele não a quer, isso ela já sabe. Ele não a aceita, ele a quer o mais longe possível de sua vida. No entanto, ele acredita que conhece o segredo que ela guarda, o segredo que ela herdou de sua mãe. Ela, porém, tem consciência de que ele não sabe de nada. Ela precisará, contra a vontade, submeter-se às regras dele e aceitar as decisões de vida dele, mesmo que a desagradem. Ela entenderá o que é desprezo... E vai descobrir que o mesmo pode durar mais tempo do que ela gostaria.
Afinal, ninguém diz ao tempo o que ele deve ou não fazer.

Capítulo 2 - O Fogo é o Inimigo Natural da Água.
"- Venha cá - chamou uma voz em tom de frustração.
Ela não se lembrava do que havia acontecido depois que ele saíra do quarto e a deixara lá. Só o que ela sabia era que tinha acordado molhada de tanto suor, ainda encolhida em posição fetal e com dor nos braços de tanto apertá-los contra as pernas.
Gabriella tentou respirar fundo, porém o ar do quarto estava pesado demais para isso. A janela fora mantida fechada, de modo que ela não soube de imediato se era dia ou noite. Saiu do quarto e foi até a sala onde, da última vez, vira o pai esbravejar. Fernando estava sentado na ponta do sofá. Ele vestia calça e camisa sociais, uma gravata verde com listras pretas e um sapato de couro. Havia uma mochila largada perto da porta.
 - Eu preciso ir trabalhar - disse ele - Não posso simplesmente me livrar de você de novo. Aliás, por que não? Afinal, você não é uma criança, não é mesmo?
A menina o olhou fixamente, sem dizer uma única palavra.
 - Sim, eu consigo ver - ele disse, inclinando-se na direção dela - Agora, eu consigo ver. Era a mesma coisa que havia nos olhos da sua mãe, esses seus olhos dissimulados... Você se parece com uma criança, mas existe algo aí dentro. Algo estranho. Algo, minha querida, que não deveria estar aqui.
Agora, ele estava de pé diante dela. Gabriella ainda sentia medo dele, mas não podia recuar. E se ele decidisse agredi-la, ou coisa pior?
 - Não entendi, papai - ela murmurou.
Fernando se moveu rapidamente e colocou uma das mãos em torno do pescoço dela. A menina tentou se soltar, em pânico, mas ele não deixou.
 - Não brinque comigo - ele grunhiu - Eu não sei o que você é, mas sei que você consegue entender. Talvez ainda seja um pouco jovem, mas você entende. A coisa dentro de você compreende.
Ele a soltou e ela se ajoelhou, tossindo. Ele caminhou em direção à porta e colocou a mochila nas costas.
 - Minha vizinha disse que pode cuidar de você por hoje - disse ele - Ela ficará com você até eu voltar. Será que você, por favor, pode fingir que é uma criança normal?
Lágrimas teimavam em invadir os olhos dela, mas Gabriella não as deixou cair. Ela não podia ser fraca... Não agora que sua mãe havia sacrificado a própria vida por ela. Pelo segredo que as duas guardavam. Ele tinha razão - até certo ponto, ela entendia. Só não podia deixá-lo saber o quanto.
- Eu... Eu serei boazinha, papai - ela murmurou.
- Ótimo.
A campainha tocou. Fernando abriu a porta e deu passagem a uma mulher de trinta e tantos anos com um cachorrinho no colo. Ela tinha cabelos curtos e castanhos, e os olhos eram verdes como uma floresta tropical. O animal em seus braços começou a latir ao encará-la nos olhos. A mulher lhe bateu nos flancos para aquietá-lo e olhou para a menina, esboçando um sorriso.
 - Olá, querida - disse-lhe, cumprimentando-a - Meu nome é Valéria. E este - ergueu o cachorro - é o Zeus, meu pequinês. Você é alérgica a cães?
Ela balançou a cabeça negativamente. Valéria exibiu satisfação e soltou Zeus para que ele pudesse explorar o ambiente. Em vez disso, ele correu e começou a farejar as pernas de Gabriella. Ela fez uma careta, pois o nariz gelado dele lhe fazia cócegas. A moça riu e se aproximou.
- Como é mesmo o seu nome? - perguntou.
- Gabriella.
- Tudo bem - disse Valéria - Não precisa se incomodar comigo, querida. Pode fazer o que quiser. Se precisar de alguma coisa, é só me chamar.
Ela aquiesceu. Foi para o quarto, esperou que Zeus entrasse e fechou a porta. Fez um carinho atrás da orelha esquerda do cão e foi até o grande armário embutido na parede. Ao abrir a porta, viu que havia muitas caixas ali, cheias de roupas dobradas. Algumas continham apenas cabides coloridos.
Ela pegou um cabide, de repente triste.
Começou a explorá-lo com os dedos, tentou pendurá-lo na barra de metal que ficava em cima - não conseguiu. Mesmo quando começou a pular, ainda era alto demais. Gabriella largou o cabide e pegou uma das caixas menores e colocou-a em cima da cama. Retirou uma das mudas que estavam dobradas e percebeu que, ali, havia várias de suas antigas blusinhas e bermudas. Olhou para si mesma, usando um vestido de algodão manchado de suor e rasgado nas extremidades. Decidiu, portanto, trocar de roupa, escolhendo uma blusinha vermelha e uma bermuda cinza.
Sentou-se na beirada da cama e tirou seus sapatinhos pretos. Balançou os pés, livres de meias, sentindo-se mais leve. Zeus soltou um latido breve e agudo, aprovando o novo modelito.
 - Gabriella - chamou Valéria, batendo na porta do quarto - Posso entrar?
A menina não respondeu. A moça tomou seu silêncio por uma afirmativa e irrompeu dentro do quarto. Olhou para Zeus antes de erguer os olhos para ela.
 - Seu pai me ligou agora dizendo que você está sem comer desde ontem à noite - disse ela - Você está com fome, meu bem? Quer que eu prepare alguma coisa?
 - Quero sim - disse ela, e sua voz suave ressoou pelo ambiente. Zeus começou a abanar o rabo. Valéria assentiu e sorriu.
 - Vou fazer um sanduíche bem gostoso - disse, saindo em direção à cozinha - Vá lavar as mãos.
Gabriella aquiesceu e foi até o banheiro que ficava no fim do estreito corredor. Era um banheiro pequeno, com lajotas de cerâmica branca no piso e pastilhas coloridas salpicando as paredes.
Ela girou a torneira e a água fria começou a escorrer, descendo em uma espiral até o ralo. Gabriella hesitou, com medo de encostar na água.
A voz de sua mãe começou a ecoar em sua cabeça. Cuidado, filha, ela dizia, a água fria pode te machucar se você tocá-la por muito tempo. A menina tinha uma vaga lembrança do dia em que ela quase causara um acidente em casa. Ela se lembrava de diversos momentos que, agora, estavam um tanto borrados em sua memória. Gabriella se recordava de correr pela casa, em desespero... Lembrava-se que, ao olhar para seus braços, havia visto somente um par de asas negras. Ela saíra do chão por alguns instantes, seus brinquedos haviam pegado fogo, alguns haviam derretido... Sua mãe a pusera no colo até que tudo voltasse ao normal. Naquele dia, ela contou à menina que ela não era igual aos outros. Ela trazia dentro de si um segredo, trazia aquilo que ela era de verdade.
E ela jamais se esqueceria do momento em que sua mãe mudou de forma e mostrou aquilo que ela trazia dentro de si, aquilo que precisava ser escondido de todos.
Gabriella se lembrava, também, que havia fogo naquelas lembranças, e o fogo é o inimigo natural da água. Tendo isso em mente, ela enfiou rapidamente as mãozinhas na água fria, pingou uma gota de sabonete e esfregou-as o mais depressa possível. Ao terminar, seus dedos estavam roxos. Ela colocou as mãos nos bolsos da bermuda até que a cor voltasse ao normal e ela pudesse sair dali.
Quando finalmente saiu do banheiro, ela ouviu o estômago roncar. Ele tinha razão, afinal, fazia um tempo desde que ela lhe dera comida pela última vez. Ao entrar na cozinha, percebeu que Zeus dirigia seu mais profundo olhar pidão à sua dona, na esperança de que ela lhe desse um pedacinho do sanduíche que estava comendo.
Gabriella se sentou, tentando ignorar o fato de que Valéria a encarava de uma maneira nada sutil. Seus olhos verdes haviam escurecido e suas pupilas estavam dilatadas, como se ela estivesse incomodada com alguma coisa.
 - Gabi - disse ela, mas ergueu uma sobrancelha ao ver o olhar que a menina lhe endereçou - Posso te chamar assim?
Ela assentiu.
 - Você é muito bonitinha, sabia? - disse ela - Nem se parece muito com o seu pai.
Valéria tinha razão, de certo modo. Os cabelos da menina eram lisos e lhe batiam na cintura, e tinham cor de mel de abelha. Sua pele era morena, e ela era mais magra e esguia do que as crianças da idade dela. Havia, porém, mais uma coisa. Aquilo que a diferenciava do resto do mundo e a tornava única, pelo menos até onde ela sabia.
 - Só que os seus olhos... - disse Valéria, pondo o dedo na ferida - São da sua mãe?
 - Não - ela respondeu, sentindo-se nervosa com a menção aos olhos - Eu nasci assim. A mamãe me disse que os meus olhos não tem uma cor normal.
- Ah, eles não tem pigmento - sugeriu a moça - São como os olhos de uma pessoa albina, bem vermelhinhos?
 - Acho que sim - ela murmurou.
 - Ah - disse a moça - Entendo.
Isso era algo que a menina entendia perfeitamente - a moça não compreendera a resposta que havia recebido. No entanto, aquela era a história que a menina usava para justificar a cor de seus olhos, de um vermelho vivo, cor de sangue. Havia, contudo, um motivo muito pior. Um segredo que Vanessa havia pedido à filha para não contar para ninguém em quem não confiasse.
A moça colocou a mãos nos ombros da menina.
 - Sei que você acabou de chegar - disse a ela - E que estava acostumada a morar com a sua mãe, mas você vai gostar daqui também. O seu pai é uma pessoa muito boa.
Gabriella se limitou a balançar a cabeça e a dar mais uma mordida em seu sanduíche. Não podia fazer mais nada, apenas esperar. Esperar e torcer para que tudo desse certo.
Clandestinamente, ela deixou um pedacinho de presunto cair. Sentiu Zeus andando entre seus pés, comendo os vestígios.
As horas passaram. Valéria prometeu a si mesma que faria tudo o que pudesse para arrancar um sorriso daquela menina. Procurou filmes de animação para ver com ela, encontrou livros infantis e lhe contou histórias, ajudou-a a pendurar as roupas no armário. Quando foi descartar o vestido rasgado dela, encontrou uma semente do tamanho de sua unha no bolsinho da frente. Juntas, as duas plantaram a semente no parapeito da janela do quarto dela.
Gabriella, aos poucos, se rendeu. Gostou da atenção que estava recebendo e, aos poucos, sorriu. Ela queria que o tempo parasse de correr. Pelo menos, que parasse de correr tão rápido. Ou que, ao menos, levasse embora toda a dor que ela sentia quando se lembrava de sua mãe.
O que ela não sabia é que ninguém diz ao tempo o que ele deve ou não fazer.
Ela descobriria isso no fim da tarde, quando o pai chegou do trabalho acompanhado por uma mulher jovem e bonita e ignorou Gabriella completamente, como se ela fosse uma manchinha em seu tapete, a qual iria ficar ali até ele se lembrar de limpá-la para sempre de sua existência."
Continua...

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- Laila.


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