Deixem que Gabriella Torres lhes conte o que aconteceu.
Capítulo 1 - A Noite dos Caras de Preto.
" A lua cheia se erguia no céu, iluminando as ruas daquela cidade silenciosa com seu brilho prateado. A luz fraca dos postes de iluminação conferia uma sombra estranhamente amarela aos objetos mais próximos. Tudo estava quieto, a cidade estava dormindo. No entanto, nem tudo por ali eram sonhos.
Passos ecoaram abafados pelas ruas e pela calçada. Longe dos olhos de qualquer ser humano comum, uma mulher jovem, de não mais que 27 anos, corria o mais rápido que podia arrastando consigo uma menina pequena de não mais que cinco anos. A garotinha ofegava, tinha os olhos arregalados de medo. Suas perninhas estavam bambas de tanto ser arrastada.
- Mamãe - lamuriou a menina - Minha perna está doendo. Podemos parar de correr?
- Shhhh - ordenou a mulher - Não podemos parar. Eles estão atrás de nós.
- Quem? - perguntou ela.
- Os caçadores - rosnou a mãe.
A menina sentiu um calafrio lhe percorrer o corpo. A alguns metros atrás delas, um grupo de homens vestidos de preto com os rostos cobertos corriam em sincronia, munidos de dardos, lanças e facões. Envoltos no silêncio da morte, nunca paravam, guiados por um rastreador que lhes indicava a direção na qual as vítimas fugiam.
Os passos deles não faziam som em contato com o paralelepípedo. Era como se eles fossem os próprios fantasmas da morte.
A mulher entrou no beco mais próximo que encontrou e escondeu a menina num canto mais escuro para que não fosse vista. Ela sabia que deveria ter levado a menina para fora da cidade. Curitiba já não era mais um lar. Devia ter aproveitado a chance enquanto ainda havia tempo o suficiente. Agora, porém, era tarde demais para se arrepender. Ela pegou, do bolso da jaqueta, um frasco de algum líquido esquisito e borrifou na menina, fazendo-a espirrar. Aquele líquido era sua última carta na manga para protegê-la. Era uma técnica pouco conhecida, talvez jamais pudesse ser difundida.
Abraçou-a com força, como se ela pudesse evaporar a qualquer momento.
- Eu te amo, filha - ela sussurrou com lágrimas quentes nos olhos - Você vai ficar bem, não se preocupe.
- Não vá embora, mamãe - suplicou a menina - Não quero ficar sozinha. Está escuro...
- Tome - disse ela, entregando-lhe um pedaço de papel amassado - O telefone e o endereço do seu pai. Fique escondida aqui e, quando amanhecer, procure alguém que possa ligar para ele. Diga-lhe que você precisa de ajuda e que eu não posso mais cuidar de você. Entendeu?
Lágrimas começaram a escorrer dos olhos da menina. De certa forma, ela sabia que a mãe não a estava abandonando - estava tentando salvar sua vida. Ela assentiu, impotente, enquanto se encolhia no chão envolto por sombras. A mulher se afastou mas, antes de sair do beco, murmurou 'eu te amo' para ela. 'Eu te amo também' ela murmurou de volta.
A mulher disparou a correr para longe.
A menina, em um último gesto de desespero, rastejou pelas sombras até a saída do beco na esperança de que sua mãe voltasse, na esperança de que aquele pesadelo pudesse ter fim. Tudo o que ela viu foi uma horda de homens de preto se atirando sobre sua mãe e o momento exato em que um deles ergueu uma faca.
O sangue que pingava da lâmina deixava manchas escuras na calçada.
...
Às vezes, situações com as quais nos deparamos ao longo da vida nos levam a tomar decisões extremas.
Como explicar o fato de que uma mãe foi obrigada a abandonar a própria filha para ir em direção à morte? Bom, talvez não tenha sido exatamente assim. Mães são extremamente sagazes e espertas, feitas para se adaptarem às diversas situações nas quais seus filhos possam estar envolvidos.
Aquela noite fora, provavelmente, a mais assustadora da vida de Gabriella.
Ela não queria acreditar, se recusava a admitir a si mesma que sua mãe estava morta e ela era a culpada.
Ela tinha medo de sair daquele beco e dar de cara com os caras de preto.
Eles a assustavam mais do que a própria morte, a qual era apenas uma mera consequência de um encontro com eles. Sua mãe sempre lhe dissera que ela deveria fugir deles, se esconder deles, pois eles eram pessoas muito ruins. Eram pessoas que iriam lhe fazer mal.
Ela tinha cinco anos. A manhã coloriu o céu depois de uma eternidade no escuro, gelada e cheia de neblina fumarenta. Ela tremia e tinha a impressão de que o mundo era uma tela de TV com defeito, pois tudo tremia junto com ela. Gabriella ficou estática nos fundos do beco, agachada. De repente, ela sentiu um volume dentro do pequeno bolso de seu vestido de algodão meio rasgado. O papel amassado exibia uma sequência de números e o nome de uma rua da qual ela não se recordava com muita precisão.
Ela caminhou para fora do beco. Tentou, em vão, ajeitar o vestido. Viu um homem de farda azul, ou cinza, não saberia dizer ao certo. Foi até ele.
- Você é policial? - perguntou a ele, puxando a barra de sua camisa.
- Sim - disse-lhe ele, balançando a cabeça. Ele olhou em volta, como se procurasse alguém que deveria estar ali - Onde estão seus pais?
- Estou perdida - falou - Mas eu tenho o telefone do meu pai. Você pode ligar para ele ou me levar até onde ele mora?
- Vamos ver isso direito - disse ele, desconfiado.
Ele pegou o papel amassado, pôs a mão no bolso e pegou um celular. Discou o número e grudou o aparelho na orelha. Esperou alguns segundos até que alguém do outro lado atendeu.
- Alô? - disse a voz.
- Bom dia, com quem estou falando? - perguntou o policial.
- Fernando - respondeu o homem - Fernando Torres. Quem está falando?
- José Silva - disse ele, duro - Sou da polícia civil.
O homem parou de falar e até mesmo de respirar por alguns instantes.
- Algum problema, senhor? - perguntou, nervoso.
- Estou com uma menininha que diz ser sua filha e que me disse que se perdeu - explicou - Você tem alguma filha?
Houve um mínimo lapso de hesitação.
- Tenho - respondeu o homem.
- Qual é o nome dela? - questionou o policial.
Mais um lapso, desta vez um pouco mais longo.
- Gabriella - respondeu ele, evasivo.
José afastou momentaneamente o celular do ouvido e perguntou a ela seu nome.
- Gabriella - respondeu - Gabriella Torres.
O policial franziu a testa e perguntou ao homem seu endereço residencial. Depois, olhou no papel. Correspondia.
- Bom, então vou levá-la até aí - disse - E então você vai poder me explicar como foi que ela se perdeu.
Dizendo isso, ele desligou. José chamou um táxi, deu-lhe o endereço e rumaram para lá. A casa de Fernando.
A casa do pai de Gabriella.
...
Fernando morava em um prédio de quinze andares.
O edifício era azul com pastilhas em azul-marinho e alguns detalhes em branco. Ao chegarem lá, o porteiro abriu o portão imediatamente. Veio até eles com os olhos fixos no policial.
- Pois não, senhor? - perguntou, hesitante - Algum problema?
- Procuro o Fernando Torres - ele anunciou.
De repente, a porta do elevador que havia ali no corredor se abriu e um homem alto de cabelos curtos e olhos escuros apareceu.
- Eu sou Fernando - disse.
- O senhor pode me explicar como foi capaz de perder uma menina de cinco anos? - questionou o policial - Ela estava zanzando no meio da rua, sozinha. Podia ter se machucado ou sofrido um acidente.
Ele parecia não saber o que dizer, então ela teve uma ideia.
- Fui eu - falou, tentando parecer convincente - Eu saí depois que ele me trouxe para casa. Tinha visto uma loja colorida a algumas quadras daqui e eu quis ir até lá. Esqueci-me de avisar o papai.
- Nunca mais saia sem me avisar, filha - ele ralhou com ela para parecer protetor, embora ela nunca tivesse se sentido tão desprotegida em sua tão breve vida.
- Me desculpe, papai - falou.
O policial estava extremamente desconfiado, sua testa vincada e seu olhar acusador para Fernando denunciavam esse sentimento. Ela não tirava a razão dele, mas não podia deixar que levasse seu pai. Era tudo o que ela tinha agora.
- Ainda vamos esclarecer isso - disse, e seu tom de voz parecia mais uma intimação - Por ora, vou deixá-la com você.
Ele saiu, não sem antes lançar uma última olhada para trás. Assim que ele sumiu de vista, a menina desejou estar perdida no exato momento em que Fernando agarrou seu pulso.
- Venha comigo - disse.
Eles subiram de elevador até seu apartamento no décimo segundo andar. Gabriella respirou fundo, tentando esquecer o fato de que não queria estar ali. Ela não gostava daquele lugar.
Desde que seu pai havia expulsado ela e a mãe dali, ela não tinha mais a intenção de retornar.
Ele abriu a pesada porta de madeira e a levou até a sala principal, a qual tinha um sofá vermelho e uma estante de livros grandona, com uma televisão pequena. Do lado direito, havia uma pequena sacada com algumas plantas, umas com flores, as outras não. Seu olhar pousou num beija-flor à paisana até seu pai agarrar novamente seu pulso.
- O que está fazendo aqui? - ele perguntou, num tom ansioso - Como é que você conseguiu o endereço da minha casa?
- Os caras de preto pegaram a mamãe - falou ela, tentando segurar o choro que ameaçava invadir seus olhos - Ela me deu uma folhinha como seu telefone e me disse para procurar você.
Ele fez um grunhido esquisito e uma careta. Ela sentia que não era bem-vinda ali e nem esperava sê-lo. Ela estava, contudo, um pouco assustada. Não esperava que ele fosse ficar tão bravo, e não sabia o que ele iria fazer. E, desta vez, sua mãe não estava ali para defendê-la.
- Que diabos a Vanessa estava pensando? - ele esbravejou - Que pode sumir assim e me mandar uma menina de cinco anos do nada, sem nada também, apenas com um papel amassado e um vestido rasgado?
A essa altura, ela já estava encolhida no canto perto do sofá. Ela o encarava, temendo a cada palavra que ele dizia, tentando pensar em uma maneira de se proteger caso ele viesse para cima dela. Sua respiração estava cada vez mais rápida. De repente, ele baixou os braços que havia erguido em seu acesso de fúria, e seus olhos se arregalaram como se, de repente, ele houvesse solucionado um quebra-cabeça.
- Ela não mandou você até aqui do nada, mandou? - ele questionou, olhando diretamente para ela - Ela está morta, não está?
Gabriella assentiu, incapaz de falar o que quer que fosse. Ele respirou fundo, e seu peito se dilatou tanto que ela pensou que pudesse explodir. Ele não voltou a falar com ela, apenas pegou seu pulso com menos força e a conduziu por um estreito corredor até o último quarto.
- Fique aqui enquanto eu penso no que vou fazer agora - disse-lhe, empurrando-a para dentro - Não sei de mais nada.
Ela se sentou na cama revestida por um lençol quadriculado e uma colcha grossa com estampa de flores sortidas. Juntou as mãos. Fernando espremeu os olhos e fechou a porta, mas ela não escutou nenhum barulho de chave na tranca. Encolheu-se o suficiente para enterrar o rosto nos joelhos. Apesar de estar naquele quarto - o seu quarto, propriedade dela e de mais ninguém - ela jamais se sentira tão exposta em toda a vida."
Continua...
Deixe a sua opinião nos comentários, ela é essencial para a evolução da história e do autor!
- Laila.

Amei! Continua, por favor!!!!!!!!
ResponderExcluirGostei! :)
ResponderExcluirExcelente começo de história! Tensa, dramática e bem cativante. Achei só um pouco confuso nos primeiros parágrafos mas nada de grave. E pessoalmente não creio que uma criança de 5 anos tenha tanta profundidade emocional. Há não ser que a autora esteja reservando uma surpresa!!! Em resumo estarei aguardando para ver o rumo da pobre Gabriella...
ResponderExcluirMuitas perguntas... a mãe tinha vínculo com a criatura, fênix? O pai sabia dos "poderes" da mãe? Por que ele não quis conviver com a esposa e a filha? Por que Curitiba? O que Gabriella Torres é de Laila Torres? Uma boa história provoca perguntas, que ecoam nos leitores. Quero mais, Laila Torres!
ResponderExcluir