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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O Pássaro de Fogo - Capítulo 3

Já sabemos que, na casa do pai, Gabriella está passando por períodos difíceis... No entanto, as coisas também não estão indo muito bem na vida de outra pessoa. Anubis, um rapaz egípcio da mesma idade de Gabriella, também precisa enfrentar os dilemas em sua casa - conviver com um pai severo, intolerante e exigente, uma mãe submissa e aceitar o fato de que jamais será, aos olhos de seu pai, tão bom quanto seu irmão mais velho. Estaria ele condenado a ser, para sempre, apenas a sombra de seu irmão?
Além disso, a família dele não é como qualquer outra. Anubis faz parte de um clã de caçadores... Também conhecidos como os "Caras de Preto". Quem serão eles, e o que fazem?

Capítulo 3 - A Verdadeira Face dos Pensamentos.
"9 anos depois...
Areia.
Muita areia, e um sol tão escaldante quanto o calor de Vênus, o planeta mais brilhante do sistema solar. Os corpos dos viajantes perdiam água aos poucos. Os camelos andavam lentamente, sem nunca parar. As roupas largas protegiam a pele das pessoas dos raios impiedosos do sol, mas a areia nunca parava de vir. Cada vez mais areia, e o vento fazia questão de chicoteá-la nos olhos de todos os seres que habitavam aquele inferno, o que devia arder muito.
Isso, infelizmente, era apenas um sonho.
Apenas um sonho após horas assistindo documentários que falavam sobre a vida no Saara, aquele deserto enorme e cheio de areia. Pois, se não fosse sonho, o que significaria a voz estridente que berrava o nome de Anubis lá do andar de baixo? Ele rolou na cama, imerso em preguiça. Era até difícil reconhecer a voz que gritava por ele, pois o rapaz havia enrolado o lençol em torno da cabeça, como um casulo de lagarta.
De repente, passos ecoaram nas escadas. Os gritos haviam cessado.
Ele sentiu uma pontada de desespero. Se seu pai estivesse em um dia ruim, poderia muito bem subir apenas para lhe dar uma surra de bom-dia. Ele, porém, logo se acalmou. Os passos eram suaves. Pouco a pouco, alguém entrou no quarto e colocou as mãos macias com dedos longos sobre a cabeça dele.
 - Anubis - chamou uma voz, suave e aveludada, que mais parecia uma harpa sendo tocada pelo vento - Acorde, filho.
Ele se mexeu, contrariado. Atirou o lençol no chão sem a menor cerimônia e se levantou de uma só vez. Encarou a mulher diante de si. Ela estava usando um vestido longo que cobria suas pernas, usava sapatilhas fechadas que cobriam os pés e estava com um lenço cor de terra na cabeça, cobrindo-lhe os cabelos.
 - Bom dia, pequeno chacal - disse ela, sorrindo.
 - Bom dia - disse ele, com um bocejo.
 - Seu pai o está chamando - ela o alertou em um tom mais urgente - Não o faça esperar.
Ele assentiu, engolindo em seco. Pelo menos, seu irmão mais velho já havia descido, o que representava uma chance de o pai ser um pouco mais brando. Esperou que sua mãe descesse, vestiu uma calça de malha fina e uma camiseta branca, passou a mão pelos cabelos bagunçados e desceu.
Ao entrar na cozinha, seu pai o fitou. Hamadi, o ditador. Estava um tanto carrancudo, mas o fato de Kassid estar ali já o ajudava a conter suas crises explosivas.
 - Não me ouviu chamar, menino? - ele questionou.
 - Desculpe, pai - disse, baixando o olhar - É que eu não consegui dormir direito na noite passada.
 Hamadi bufou, impaciente.
 - Precisa afiar sua atenção - disse - Kassid atendeu nos primeiros chamados. Durante uma caçada, a sua vida pode depender disso.
Ah, claro, como se eu fosse seu cachorrinho de estimação, pensou o rapaz. Ele sempre se utilizava de Kassid como referência, como se ele fosse a própria perfeição. O mais velho sorriu, mas Anubis fechou a cara.
Amira deu sinais de que iria se aproximar dele, mas por alguma razão acabou desistindo. Em vez disso, voltou a adotar uma postura submissa e se dirigiu ao marido.
 - Hamadi - disse ela, e ele a encarou. Ela respirou fundo antes de continuar - A vizinha da casa amarela, no fim da rua, convidou a mim e às meninas para tomar uma xícara de chai, e para que elas brinquem com a filha dela. Pensei...
 - Da casa amarela - disse, interrompendo-a - A casa de Zaid, o professor?
 - Sim - ela confirmou - Sua esposa é Naila. A filha se chama Alita.
 - Mas eles... - ponderou Hamadi - Acha mesmo que é uma boa ideia?
Anubis soltou um suspiro. Ele sabia mais do que qualquer um que aquele seria mais um dos milhares de debates que seus pais tinham todos os dias. Ele já sabia que seu pai tinha certo receio dos vizinhos. Alguns conflitos civis haviam ocorrido há algumas semanas no bairro, por conta de algumas diferenças entre sunitas e xiitas, e as ruas não estavam muito seguras desde então, muito menos a casa dos vizinhos. Além disso, apesar do cuidado para não chamar atenção, eles sabiam que algumas famílias das redondezas falavam deles pelas costas. Afinal, eles não seguiam a mesma doutrina religiosa.
 - Tomaremos cuidado - Amira prometeu - Sabemos o quanto seria ruim para todos se houvesse algum deslize.
 - Meninas! - ele gritou, passando a mão pelos cabelos ralos.
As gêmeas apareceram, como sempre, juntas. Vinham correndo do quintal de trás da casa, mas hesitaram ao perceberem a severidade na expressão do pai.
 - Sim, papai? - disseram Farah e Naja ao mesmo tempo.
 - Vocês querem ir à casa de sua amiga? - ele perguntou.
Elas balançaram a cabeça, confirmando.
 - Os hábitos da família dela são diferentes dos nossos - disse ele, naquele tom que sugeria que não iria tolerar contestações - Acham que são inteligentes o bastante para brincar e manter um segredo ao mesmo tempo?
Aquilo soou mais acusador do que ele pretendia, o que as fez abaixar a cabeça. Amira lançou-lhe um olhar penetrante e ele tentou corrigir.
 - O que quero dizer - ele se aproximou delas - É que podemos ter problemas se algo der errado. Será que eu posso confiar em vocês?
Bem lá no fundo, Anubis sabia que a questão era simples. Com seu pai, as coisas eram sucintas e diretas. Ele só estava procurando algo que pudesse servir de justificativa para uma resposta negativa ao pedido delas. Elas tinham apenas oito anos, mas não se podia subestimá-las.
 - Pode sim, papai - disse Farah - Mamãe já nos disse que é muito importante manter segredo.
 - Deixe-nos mostrar que somos dignas da sua confiança - arrematou Naja, o que fez Anubis abrir um sorriso malicioso.
Como eram espertas.
- Tudo bem, ok, vocês venceram - disse ele, impaciente - Podem ir.
As duas meninas vibraram e correram em direção à porta. Hamadi tocou o ombro de Amira.
 - Vigie-as - ordenou - E tenham cuidado.
Amira assentiu, foi só o que lhe restou fazer. Ela se manteve quieta, pegou a bolsa e saiu com as meninas, que pulavam. Assim que elas fecharam a porta, Hamadi se virou para os meninos com aquele olhar severo que o caracterizava.
Anubis, com certo rancor, costumava dizer que o pai não tinha preferência pelos meninos assim, no plural, mas no singular. Kassid, o primogênito, era o eterno favorito. Por vezes a fio, Hamadi sequer se dera ao trabalho de disfarçar a distinção que fazia entre eles. Isso despertava uma raiva latente em Anubis.
Mas, apesar disso, ele parecia, por vezes, até mesmo conformado.
Anubis pensava em sua família como um grande bolo de festa - Hamadi seria a vela acesa e brilhante no topo, Kassid seria a cobertura cremosa e as mulheres seriam as figuras coloridas feitas com glacê. Com tudo isso, ninguém se interessaria pelo recheio grudento que estava por dentro, que por acaso era ele.
 - Seu horário delimitado para acordar será estendido aos fins de semana - disse Hamadi, olhando para o filho mais novo - Não posso permitir que outros membros do clã se tornem lapsos como você para coisas tão simples quanto a disciplina ao acordar.
- Pai, eu venho tendo dificuldades para dorm...
- Nem uma palavra - ele o interrompeu - Isto não está aberto para contestações. Kassid, eu li suas novas propostas táticas para emboscadas e elas estão aprovadas. Treine os rapazes e mostre a eles o que é ser capaz.
O mais velho sorriu discretamente e aquiesceu, em silêncio.
- Subam e peguem as roupas - disse ele - Estamos indo para o galpão de treinamento.
Os dois se levantaram e subiram as escadas lado a lado. Eles dividiam um único quarto, pois o andar de cima dispunha de apenas três - uma suíte para Hamadi e Amira, um quarto com um beliche para as gêmeas e o outro, para eles, com duas camas separadas. Anubis pensou em Seth, o menino que morava na casa ao lado e que precisava dividir o quarto com três irmãs mais novas, enquanto as três mais velhas ocupavam o outro quarto. Anubis sempre se sentia aliviado por dividir seu quarto com apenas um irmão.
Mais um ponto de discriminação - a cama de Kassid era novinha, comprada no mês passado, enquanto a de Anubis tinha a idade dele, catorze anos, e corria o risco de despencar ao chão a qualquer instante.
 - Nubi - disse Kassid, chamando-o pelo detestável apelido que as irmãs haviam lhe dado - Onde está a minha camiseta branca?
 - Sei lá, cara - respondeu - Temos um monte de camisetas brancas. Como é que eu vou saber qual é minha e qual é sua?
 - As minhas tem etiqueta verde - ele explicou - As suas tem etiqueta azul. Será que preciso repetir isso toda vez?
Anubis contorceu-se e puxou a etiqueta da camiseta que estava vestindo. Engoliu em seco.
 - Bom, digamos que eu estou devendo uma camiseta para você - disse, com culpa na voz - Aliás, por que é que você usa o mesmo tamanho que eu?
 - Na verdade, é você quem usa o meu tamanho - ele riu - Usarei uma sua hoje para quitar a dívida. Quem mandou crescer tão rápido?
Kassid agarrou Anubis pela cintura e o jogou na própria cama, socando-o de brincadeira na barriga e impedindo-o de se defender.
 - Ladrão de camisetas - disse-lhe, rindo.
 - Queridinho do papai - Anubis devolveu.
Kassid fingiu estar extremamente ofendido e começou a fazer cócegas violentas no irmão. Anubis se dobrou de tanto rir. Deu um soco para se afastar do irmão, e os dois se olharam. Riram mais uma vez, como duas crianças.
O grito de Hamadi cortou a brincadeira e, num salto, eles voltaram a colocar camisetas e vestir calças.
 - Não sei por que ele comprou tantas camisetas brancas - disse Anubis - Tudo bem que aqui em Cairo é bem quente, mas...
 - Rápido - Kassid o interrompeu, com a expressão endurecida - Ele está vindo, eu acho.
Os dois lutaram contra as calças para vesti-las mais depressa. Em seguida, cada um pegou uma muda de roupa preta das gavetas da cômoda. Elas consistiam em uma calça preta justa, uma camiseta preta de mangas compridas, luvas e uma máscara preta que cobria o rosto, deixando apenas os olhos de fora. Podia parecer coisa de ninja, mas essas roupas escondiam uma filosofia de vida que a maioria dos humanos ignorantes desconhecia. Kassid agarrou sua muda e chamou o irmão. Anubis pegou sua muda, bagunçou o cabelo e o seguiu.
Ele tinha plena consciência de que, todas as vezes em que vestia aquelas roupas, ele escondia sua identidade e a verdadeira face de seus pensamentos."
Continua...

Deixe a sua opinião nos comentários, ela é importantíssima para a evolução da história e da autora!!!


 
- Laila.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O Pássaro de Fogo - Capítulo 2

Na casa de seu pai, Gabriella ainda não sabe como serão as coisas. Ele não a quer, isso ela já sabe. Ele não a aceita, ele a quer o mais longe possível de sua vida. No entanto, ele acredita que conhece o segredo que ela guarda, o segredo que ela herdou de sua mãe. Ela, porém, tem consciência de que ele não sabe de nada. Ela precisará, contra a vontade, submeter-se às regras dele e aceitar as decisões de vida dele, mesmo que a desagradem. Ela entenderá o que é desprezo... E vai descobrir que o mesmo pode durar mais tempo do que ela gostaria.
Afinal, ninguém diz ao tempo o que ele deve ou não fazer.

Capítulo 2 - O Fogo é o Inimigo Natural da Água.
"- Venha cá - chamou uma voz em tom de frustração.
Ela não se lembrava do que havia acontecido depois que ele saíra do quarto e a deixara lá. Só o que ela sabia era que tinha acordado molhada de tanto suor, ainda encolhida em posição fetal e com dor nos braços de tanto apertá-los contra as pernas.
Gabriella tentou respirar fundo, porém o ar do quarto estava pesado demais para isso. A janela fora mantida fechada, de modo que ela não soube de imediato se era dia ou noite. Saiu do quarto e foi até a sala onde, da última vez, vira o pai esbravejar. Fernando estava sentado na ponta do sofá. Ele vestia calça e camisa sociais, uma gravata verde com listras pretas e um sapato de couro. Havia uma mochila largada perto da porta.
 - Eu preciso ir trabalhar - disse ele - Não posso simplesmente me livrar de você de novo. Aliás, por que não? Afinal, você não é uma criança, não é mesmo?
A menina o olhou fixamente, sem dizer uma única palavra.
 - Sim, eu consigo ver - ele disse, inclinando-se na direção dela - Agora, eu consigo ver. Era a mesma coisa que havia nos olhos da sua mãe, esses seus olhos dissimulados... Você se parece com uma criança, mas existe algo aí dentro. Algo estranho. Algo, minha querida, que não deveria estar aqui.
Agora, ele estava de pé diante dela. Gabriella ainda sentia medo dele, mas não podia recuar. E se ele decidisse agredi-la, ou coisa pior?
 - Não entendi, papai - ela murmurou.
Fernando se moveu rapidamente e colocou uma das mãos em torno do pescoço dela. A menina tentou se soltar, em pânico, mas ele não deixou.
 - Não brinque comigo - ele grunhiu - Eu não sei o que você é, mas sei que você consegue entender. Talvez ainda seja um pouco jovem, mas você entende. A coisa dentro de você compreende.
Ele a soltou e ela se ajoelhou, tossindo. Ele caminhou em direção à porta e colocou a mochila nas costas.
 - Minha vizinha disse que pode cuidar de você por hoje - disse ele - Ela ficará com você até eu voltar. Será que você, por favor, pode fingir que é uma criança normal?
Lágrimas teimavam em invadir os olhos dela, mas Gabriella não as deixou cair. Ela não podia ser fraca... Não agora que sua mãe havia sacrificado a própria vida por ela. Pelo segredo que as duas guardavam. Ele tinha razão - até certo ponto, ela entendia. Só não podia deixá-lo saber o quanto.
- Eu... Eu serei boazinha, papai - ela murmurou.
- Ótimo.
A campainha tocou. Fernando abriu a porta e deu passagem a uma mulher de trinta e tantos anos com um cachorrinho no colo. Ela tinha cabelos curtos e castanhos, e os olhos eram verdes como uma floresta tropical. O animal em seus braços começou a latir ao encará-la nos olhos. A mulher lhe bateu nos flancos para aquietá-lo e olhou para a menina, esboçando um sorriso.
 - Olá, querida - disse-lhe, cumprimentando-a - Meu nome é Valéria. E este - ergueu o cachorro - é o Zeus, meu pequinês. Você é alérgica a cães?
Ela balançou a cabeça negativamente. Valéria exibiu satisfação e soltou Zeus para que ele pudesse explorar o ambiente. Em vez disso, ele correu e começou a farejar as pernas de Gabriella. Ela fez uma careta, pois o nariz gelado dele lhe fazia cócegas. A moça riu e se aproximou.
- Como é mesmo o seu nome? - perguntou.
- Gabriella.
- Tudo bem - disse Valéria - Não precisa se incomodar comigo, querida. Pode fazer o que quiser. Se precisar de alguma coisa, é só me chamar.
Ela aquiesceu. Foi para o quarto, esperou que Zeus entrasse e fechou a porta. Fez um carinho atrás da orelha esquerda do cão e foi até o grande armário embutido na parede. Ao abrir a porta, viu que havia muitas caixas ali, cheias de roupas dobradas. Algumas continham apenas cabides coloridos.
Ela pegou um cabide, de repente triste.
Começou a explorá-lo com os dedos, tentou pendurá-lo na barra de metal que ficava em cima - não conseguiu. Mesmo quando começou a pular, ainda era alto demais. Gabriella largou o cabide e pegou uma das caixas menores e colocou-a em cima da cama. Retirou uma das mudas que estavam dobradas e percebeu que, ali, havia várias de suas antigas blusinhas e bermudas. Olhou para si mesma, usando um vestido de algodão manchado de suor e rasgado nas extremidades. Decidiu, portanto, trocar de roupa, escolhendo uma blusinha vermelha e uma bermuda cinza.
Sentou-se na beirada da cama e tirou seus sapatinhos pretos. Balançou os pés, livres de meias, sentindo-se mais leve. Zeus soltou um latido breve e agudo, aprovando o novo modelito.
 - Gabriella - chamou Valéria, batendo na porta do quarto - Posso entrar?
A menina não respondeu. A moça tomou seu silêncio por uma afirmativa e irrompeu dentro do quarto. Olhou para Zeus antes de erguer os olhos para ela.
 - Seu pai me ligou agora dizendo que você está sem comer desde ontem à noite - disse ela - Você está com fome, meu bem? Quer que eu prepare alguma coisa?
 - Quero sim - disse ela, e sua voz suave ressoou pelo ambiente. Zeus começou a abanar o rabo. Valéria assentiu e sorriu.
 - Vou fazer um sanduíche bem gostoso - disse, saindo em direção à cozinha - Vá lavar as mãos.
Gabriella aquiesceu e foi até o banheiro que ficava no fim do estreito corredor. Era um banheiro pequeno, com lajotas de cerâmica branca no piso e pastilhas coloridas salpicando as paredes.
Ela girou a torneira e a água fria começou a escorrer, descendo em uma espiral até o ralo. Gabriella hesitou, com medo de encostar na água.
A voz de sua mãe começou a ecoar em sua cabeça. Cuidado, filha, ela dizia, a água fria pode te machucar se você tocá-la por muito tempo. A menina tinha uma vaga lembrança do dia em que ela quase causara um acidente em casa. Ela se lembrava de diversos momentos que, agora, estavam um tanto borrados em sua memória. Gabriella se recordava de correr pela casa, em desespero... Lembrava-se que, ao olhar para seus braços, havia visto somente um par de asas negras. Ela saíra do chão por alguns instantes, seus brinquedos haviam pegado fogo, alguns haviam derretido... Sua mãe a pusera no colo até que tudo voltasse ao normal. Naquele dia, ela contou à menina que ela não era igual aos outros. Ela trazia dentro de si um segredo, trazia aquilo que ela era de verdade.
E ela jamais se esqueceria do momento em que sua mãe mudou de forma e mostrou aquilo que ela trazia dentro de si, aquilo que precisava ser escondido de todos.
Gabriella se lembrava, também, que havia fogo naquelas lembranças, e o fogo é o inimigo natural da água. Tendo isso em mente, ela enfiou rapidamente as mãozinhas na água fria, pingou uma gota de sabonete e esfregou-as o mais depressa possível. Ao terminar, seus dedos estavam roxos. Ela colocou as mãos nos bolsos da bermuda até que a cor voltasse ao normal e ela pudesse sair dali.
Quando finalmente saiu do banheiro, ela ouviu o estômago roncar. Ele tinha razão, afinal, fazia um tempo desde que ela lhe dera comida pela última vez. Ao entrar na cozinha, percebeu que Zeus dirigia seu mais profundo olhar pidão à sua dona, na esperança de que ela lhe desse um pedacinho do sanduíche que estava comendo.
Gabriella se sentou, tentando ignorar o fato de que Valéria a encarava de uma maneira nada sutil. Seus olhos verdes haviam escurecido e suas pupilas estavam dilatadas, como se ela estivesse incomodada com alguma coisa.
 - Gabi - disse ela, mas ergueu uma sobrancelha ao ver o olhar que a menina lhe endereçou - Posso te chamar assim?
Ela assentiu.
 - Você é muito bonitinha, sabia? - disse ela - Nem se parece muito com o seu pai.
Valéria tinha razão, de certo modo. Os cabelos da menina eram lisos e lhe batiam na cintura, e tinham cor de mel de abelha. Sua pele era morena, e ela era mais magra e esguia do que as crianças da idade dela. Havia, porém, mais uma coisa. Aquilo que a diferenciava do resto do mundo e a tornava única, pelo menos até onde ela sabia.
 - Só que os seus olhos... - disse Valéria, pondo o dedo na ferida - São da sua mãe?
 - Não - ela respondeu, sentindo-se nervosa com a menção aos olhos - Eu nasci assim. A mamãe me disse que os meus olhos não tem uma cor normal.
- Ah, eles não tem pigmento - sugeriu a moça - São como os olhos de uma pessoa albina, bem vermelhinhos?
 - Acho que sim - ela murmurou.
 - Ah - disse a moça - Entendo.
Isso era algo que a menina entendia perfeitamente - a moça não compreendera a resposta que havia recebido. No entanto, aquela era a história que a menina usava para justificar a cor de seus olhos, de um vermelho vivo, cor de sangue. Havia, contudo, um motivo muito pior. Um segredo que Vanessa havia pedido à filha para não contar para ninguém em quem não confiasse.
A moça colocou a mãos nos ombros da menina.
 - Sei que você acabou de chegar - disse a ela - E que estava acostumada a morar com a sua mãe, mas você vai gostar daqui também. O seu pai é uma pessoa muito boa.
Gabriella se limitou a balançar a cabeça e a dar mais uma mordida em seu sanduíche. Não podia fazer mais nada, apenas esperar. Esperar e torcer para que tudo desse certo.
Clandestinamente, ela deixou um pedacinho de presunto cair. Sentiu Zeus andando entre seus pés, comendo os vestígios.
As horas passaram. Valéria prometeu a si mesma que faria tudo o que pudesse para arrancar um sorriso daquela menina. Procurou filmes de animação para ver com ela, encontrou livros infantis e lhe contou histórias, ajudou-a a pendurar as roupas no armário. Quando foi descartar o vestido rasgado dela, encontrou uma semente do tamanho de sua unha no bolsinho da frente. Juntas, as duas plantaram a semente no parapeito da janela do quarto dela.
Gabriella, aos poucos, se rendeu. Gostou da atenção que estava recebendo e, aos poucos, sorriu. Ela queria que o tempo parasse de correr. Pelo menos, que parasse de correr tão rápido. Ou que, ao menos, levasse embora toda a dor que ela sentia quando se lembrava de sua mãe.
O que ela não sabia é que ninguém diz ao tempo o que ele deve ou não fazer.
Ela descobriria isso no fim da tarde, quando o pai chegou do trabalho acompanhado por uma mulher jovem e bonita e ignorou Gabriella completamente, como se ela fosse uma manchinha em seu tapete, a qual iria ficar ali até ele se lembrar de limpá-la para sempre de sua existência."
Continua...

Deixe a sua opinião nos comentários, ela é importantíssima para a evolução da autora e da história!

 
- Laila.


domingo, 16 de novembro de 2014

O Pássaro de Fogo - Capítulo 1

Em um passado muito distante, as pessoas registravam relatos de uma criatura magnífica e perigosa que amedrontava suas vidas. Diziam que ela se parecia com um pássaro, imenso, que podia incendiar o próprio corpo. Não sabiam ao certo quais eram suas intenções, mas ela parecia ser perigosa... Sendo assim, um grupo de homens se juntou e decidiu que iriam destruí-la. Eles se armaram e saíram atrás dos rastros luminosos da criatura. Ela, porém, era inteligente... Ela se proliferou e se misturou aos humanos, como ela poderia fazer tal coisa? Essa caçada perdura há mais de um milênio.
Deixem que Gabriella Torres lhes conte o que aconteceu.

Capítulo 1 - A Noite dos Caras de Preto.
" A lua cheia se erguia no céu, iluminando as ruas daquela cidade silenciosa com seu brilho prateado. A luz fraca dos postes de iluminação conferia uma sombra estranhamente amarela aos objetos mais próximos. Tudo estava quieto, a cidade estava dormindo. No entanto, nem tudo por ali eram sonhos.
 Passos ecoaram abafados pelas ruas e pela calçada. Longe dos olhos de qualquer ser humano comum, uma mulher jovem, de não mais que 27 anos, corria o mais rápido que podia arrastando consigo uma menina pequena de não mais que cinco anos. A garotinha ofegava, tinha os olhos arregalados de medo. Suas perninhas estavam bambas de tanto ser arrastada.
- Mamãe - lamuriou a menina - Minha perna está doendo. Podemos parar de correr?
- Shhhh - ordenou a mulher - Não podemos parar. Eles estão atrás de nós.
- Quem? - perguntou ela.
- Os caçadores - rosnou a mãe.
 A menina sentiu um calafrio lhe percorrer o corpo. A alguns metros atrás delas, um grupo de homens vestidos de preto com os rostos cobertos corriam em sincronia, munidos de dardos, lanças e facões. Envoltos no silêncio da morte, nunca paravam, guiados por um rastreador que lhes indicava a direção na qual as vítimas fugiam.
 Os passos deles não faziam som em contato com o paralelepípedo. Era como se eles fossem os próprios fantasmas da morte.
 A mulher entrou no beco mais próximo que encontrou e escondeu a menina num canto mais escuro para que não fosse vista. Ela sabia que deveria ter levado a menina para fora da cidade. Curitiba já não era mais um lar. Devia ter aproveitado a chance enquanto ainda havia tempo o suficiente. Agora, porém, era tarde demais para se arrepender. Ela pegou, do bolso da jaqueta, um frasco de algum líquido esquisito e borrifou na menina, fazendo-a espirrar. Aquele líquido era sua última carta na manga para protegê-la. Era uma técnica pouco conhecida, talvez jamais pudesse ser difundida.
 Abraçou-a com força, como se ela pudesse evaporar a qualquer momento.
- Eu te amo, filha - ela sussurrou com lágrimas quentes nos olhos - Você vai ficar bem, não se preocupe.
- Não vá embora, mamãe - suplicou a menina - Não quero ficar sozinha. Está escuro...
- Tome - disse ela, entregando-lhe um pedaço de papel amassado - O telefone e o endereço do seu pai. Fique escondida aqui e, quando amanhecer, procure alguém que possa ligar para ele. Diga-lhe que você precisa de ajuda e que eu não posso mais cuidar de você. Entendeu?
 Lágrimas começaram a escorrer dos olhos da menina. De certa forma, ela sabia que a mãe não a estava abandonando - estava tentando salvar sua vida. Ela assentiu, impotente, enquanto se encolhia no chão envolto por sombras. A mulher se afastou mas, antes de sair do beco, murmurou 'eu te amo' para ela. 'Eu te amo também' ela murmurou de volta.
 A mulher disparou a correr para longe.
 A menina, em um último gesto de desespero, rastejou pelas sombras até a saída do beco na esperança de que sua mãe voltasse, na esperança de que aquele pesadelo pudesse ter fim. Tudo o que ela viu foi uma horda de homens de preto se atirando sobre sua mãe e o momento exato em que um deles ergueu uma faca.
 O sangue que pingava da lâmina deixava manchas escuras na calçada.
 ...
 Às vezes, situações com as quais nos deparamos ao longo da vida nos levam a tomar decisões extremas.
 Como explicar o fato de que uma mãe foi obrigada a abandonar a própria filha para ir em direção à morte? Bom, talvez não tenha sido exatamente assim. Mães são extremamente sagazes e espertas, feitas para se adaptarem às diversas situações nas quais seus filhos possam estar envolvidos.
 Aquela noite fora, provavelmente, a mais assustadora da vida de Gabriella.
 Ela não queria acreditar, se recusava a admitir a si mesma que sua mãe estava morta e ela era a culpada.
 Ela tinha medo de sair daquele beco e dar de cara com os caras de preto.
 Eles a assustavam mais do que a própria morte, a qual era apenas uma mera consequência de um encontro com eles. Sua mãe sempre lhe dissera que ela deveria fugir deles, se esconder deles, pois eles eram pessoas muito ruins. Eram pessoas que iriam lhe fazer mal.
 Ela tinha cinco anos. A manhã coloriu o céu depois de uma eternidade no escuro, gelada e cheia de neblina fumarenta. Ela tremia e tinha a impressão de que o mundo era uma tela de TV com defeito, pois tudo tremia junto com ela. Gabriella ficou estática nos fundos do beco, agachada. De repente, ela sentiu um volume dentro do pequeno bolso de seu vestido de algodão meio rasgado. O papel amassado exibia uma sequência de números e o nome de uma rua da qual ela não se recordava com muita precisão.
 Ela caminhou para fora do beco. Tentou, em vão, ajeitar o vestido. Viu um homem de farda azul, ou cinza, não saberia dizer ao certo. Foi até ele.
- Você é policial? - perguntou a ele, puxando a barra de sua camisa.
- Sim - disse-lhe ele, balançando a cabeça. Ele olhou em volta, como se procurasse alguém que deveria estar ali - Onde estão seus pais?
- Estou perdida - falou - Mas eu tenho o telefone do meu pai. Você pode ligar para ele ou me levar até onde ele mora?
- Vamos ver isso direito - disse ele, desconfiado.
Ele pegou o papel amassado, pôs a mão no bolso e pegou um celular. Discou o número e grudou o aparelho na orelha. Esperou alguns segundos até que alguém do outro lado atendeu.
- Alô? - disse a voz.
- Bom dia, com quem estou falando? - perguntou o policial.
- Fernando - respondeu o homem - Fernando Torres. Quem está falando?
- José Silva - disse ele, duro - Sou da polícia civil.
 O homem parou de falar e até mesmo de respirar por alguns instantes.
- Algum problema, senhor? - perguntou, nervoso.
- Estou com uma menininha que diz ser sua filha e que me disse que se perdeu - explicou - Você tem alguma filha?
 Houve um mínimo lapso de hesitação.
- Tenho - respondeu o homem.
- Qual é o nome dela? - questionou o policial.
 Mais um lapso, desta vez um pouco mais longo.
- Gabriella - respondeu ele, evasivo.
José afastou momentaneamente o celular do ouvido e perguntou a ela seu nome.
- Gabriella - respondeu - Gabriella Torres.
 O policial franziu a testa e perguntou ao homem seu endereço residencial. Depois, olhou no papel. Correspondia.
- Bom, então vou levá-la até aí - disse - E então você vai poder me explicar como foi que ela se perdeu.
 Dizendo isso, ele desligou. José chamou um táxi, deu-lhe o endereço e rumaram para lá. A casa de Fernando.
 A casa do pai de Gabriella.
 ...
 Fernando morava em um prédio de quinze andares.
 O edifício era azul com pastilhas em azul-marinho e alguns detalhes em branco. Ao chegarem lá, o porteiro abriu o portão imediatamente. Veio até eles com os olhos fixos no policial.
- Pois não, senhor? - perguntou, hesitante - Algum problema?
- Procuro o Fernando Torres - ele anunciou.
 De repente, a porta do elevador que havia ali no corredor se abriu e um homem alto de cabelos curtos e olhos escuros apareceu.
- Eu sou Fernando - disse.
- O senhor pode me explicar como foi capaz de perder uma menina de cinco anos? - questionou o policial - Ela estava zanzando no meio da rua, sozinha. Podia ter se machucado ou sofrido um acidente.
 Ele parecia não saber o que dizer, então ela teve uma ideia.
- Fui eu - falou, tentando parecer convincente - Eu saí depois que ele me trouxe para casa. Tinha visto uma loja colorida a algumas quadras daqui e eu quis ir até lá. Esqueci-me de avisar o papai.
- Nunca mais saia sem me avisar, filha - ele ralhou com ela para parecer protetor, embora ela nunca tivesse se sentido tão desprotegida em sua tão breve vida.
- Me desculpe, papai - falou.
 O policial estava extremamente desconfiado, sua testa vincada e seu olhar acusador para Fernando denunciavam esse sentimento. Ela não tirava a razão dele, mas não podia deixar que levasse seu pai. Era tudo o que ela tinha agora.
- Ainda vamos esclarecer isso - disse, e seu tom de voz parecia mais uma intimação - Por ora, vou deixá-la com você.
Ele saiu, não sem antes lançar uma última olhada para trás. Assim que ele sumiu de vista, a menina desejou estar perdida no exato momento em que Fernando agarrou seu pulso.
- Venha comigo - disse.
 Eles subiram de elevador até seu apartamento no décimo segundo andar. Gabriella respirou fundo, tentando esquecer o fato de que não queria estar ali. Ela não gostava daquele lugar.
 Desde que seu pai havia expulsado ela e a mãe dali, ela não tinha mais a intenção de retornar.
 Ele abriu a pesada porta de madeira e a levou até a sala principal, a qual tinha um sofá vermelho e uma estante de livros grandona, com uma televisão pequena. Do lado direito, havia uma pequena sacada com algumas plantas, umas com flores, as outras não. Seu olhar pousou num beija-flor à paisana até seu pai agarrar novamente seu pulso.
- O que está fazendo aqui? - ele perguntou, num tom ansioso - Como é que você conseguiu o endereço da minha casa?
- Os caras de preto pegaram a mamãe - falou ela, tentando segurar o choro que ameaçava invadir seus olhos - Ela me deu uma folhinha como seu telefone e me disse para procurar você.
 Ele fez um grunhido esquisito e uma careta. Ela sentia que não era bem-vinda ali e nem esperava sê-lo. Ela estava, contudo, um pouco assustada. Não esperava que ele fosse ficar tão bravo, e não sabia o que ele iria fazer. E, desta vez, sua mãe não estava ali para defendê-la.
- Que diabos a Vanessa estava pensando? - ele esbravejou - Que pode sumir assim e me mandar uma menina de cinco anos do nada, sem nada também, apenas com um papel amassado e um vestido rasgado?
A essa altura, ela já estava encolhida no canto perto do sofá. Ela o encarava, temendo a cada palavra que ele dizia, tentando pensar em uma maneira de se proteger caso ele viesse para cima dela. Sua respiração estava cada vez mais rápida. De repente, ele baixou os braços que havia erguido em seu acesso de fúria, e seus olhos se arregalaram como se, de repente, ele houvesse solucionado um quebra-cabeça.
- Ela não mandou você até aqui do nada, mandou? - ele questionou, olhando diretamente para ela - Ela está morta, não está?
Gabriella assentiu, incapaz de falar o que quer que fosse. Ele respirou fundo, e seu peito se dilatou tanto que ela pensou que pudesse explodir. Ele não voltou a falar com ela, apenas pegou seu pulso com menos força e a conduziu por um estreito corredor até o último quarto.
- Fique aqui enquanto eu penso no que vou fazer agora - disse-lhe, empurrando-a para dentro - Não sei de mais nada.
Ela se sentou na cama revestida por um lençol quadriculado e uma colcha grossa com estampa de flores sortidas. Juntou as mãos. Fernando espremeu os olhos e fechou a porta, mas ela não escutou nenhum barulho de chave na tranca. Encolheu-se o suficiente para enterrar o rosto nos joelhos. Apesar de estar naquele quarto - o seu quarto, propriedade dela e de mais ninguém - ela jamais se sentira tão exposta em toda a vida."
Continua...

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- Laila.